Vitória digna de Corinthians, jogo digno de 100 anos

Romero, Rodriguinho e Jô celebram o gol da vitória corintiana.
Imagem: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians.
Corinthians superou limitações e erro de arbitragem para vencer o Palmeiras em mais um capítulo épico de uma história centenária


100 anos de rivalidade. 100 anos do maior clássico do mundo. 100 anos que se completam agora, em 2017. A celebração do centenário desse duelo de gigantes começou na noite de ontem. E o primeiro encontro entre Corinthians e Palmeiras deste ano provou o peso do clássico. A partida, válida pela quinta rodada do Campeonato Paulista, já está marcada na história do Derby. Mesmo com um jogador a menos, graças a um erro grosseiro do árbitro, o Timão venceu por 1x0. Mais do que o placar, entretanto, o que tornou esse jogo épico foi a forma como a vitória aconteceu. A partida colocava times em situações parecidas em seus respectivos grupos (líderes com três vitórias e uma derrota), mas com perfis muito opostos: uma equipe em construção, sem reforços badalados, contra um elenco forte com contratações de peso. Um clube sob crise administrativa, com poucos recursos, contra um clube rico com um patrocínio milionário. Um time que decepcionou em 2016 contra o atual campeão brasileiro. De um lado, a esperança de fazer uma temporada ao menos razoável; de outro, um favorito a ganhar a Libertadores (e quem sabe um Mundial).
Esse choque de realidades, porém, se dissiparia quando os dois lados se encontrassem no gramado da Arena Corinthians. Em campo, as contradições ficarim para trás. Nas arquibancadas também: mais de 30 mil loucos foram ao seu lar empurrar o Timão contra os rivais. Haviam espaços vazios, é verdade, mas ainda foi um público maior que nos jogos anteriores (contra o Novorizontino, foram menos de 12 mil pessoas). No Derby, a história é diferente. Não raramente, o time considerado mais fraco ganha. E os corintianos sabem muito bem disso. Afinal, quantas vezes o Corinthians começou como azarão e acabou como campeão, como no Brasileirão de 90 e na Libertadores de 2012? E quantas vezes esse time não se reergueu diante de seu grande rival, como naquele jogo pós-Tolima no Paulistão de 2011? Nesta noite, não seria diferente: chegava a hora da redenção.
A partida começou já em clima de tensão. Os primeiros minutos foram logo dominados por divididas e brigas entre os dois times, dando trabalho ao árbitro. Por esses lances, Felipe Melo e Raphael Veiga receberam cartão amarelo, diferente de Gabriel, que, para revolta dos visitantes, não foi advertido após uma entrada forte. Só mais tarde é que o volante do Corinthians recebeu a punição, por uma falta de ataque. Enquanto isso, Romero dava o sangue pelo time da casa e travava um duelo particular com Dudu, que gosta de chapéus e adora provocar os rivais. Rodriguinho, após um chute de fora da área, sentiu dores musculares e quase foi substituído, mas acabou ficando. O ímpeto era tamanho que, aos 28 minutos, Felipe Melo e Mina foram disputar a bola ao alto e deram de cabeça um no outro. Melou acabou levando a pior: sangrou muito e teve de colocar um curativo e uma touca.
As duas equipes não hesitavam em ir para cima, cada um com sua forma: os visitantes cadenciavam mais o jogo, enquanto os anfitriões apostavam mais na raça. Porém, foram poucas as chances claras de gol: do lado corintiano, Gabriel quase abriu o placar logo aos 2 minutos, com um chute à distância que passou com perigo pela meta de Fernando Prass. Já pelo Palmeiras, Keno assustou a torcida corintiana com um chute no travessão, aos 23 minutos. Mesmo com o equilíbrio, o Corinthians tinha mais posse de bola e não deixava o Palmeiras jogar. O Verdão não superava o esquema defensivo montado por Fábio Carille e tinha dificuldades para criar jogadas de perigo. Com o fim da primeira etapa se aproximando, o time visitante segurava mais a bola, como se esperasse o intervalo para ver como alterar o panorama do jogo.
Mas tudo mudaria aos 44 minutos. Keno puxava um contra-ataque para o Palmeiras até sofrer falta de Maycon. O juiz Thiago Duarte Peixoto, que estava perto do lance, viu Gabriel por perto e deu o segundo cartão amarelo ao volante, expulsando-o em seguida. Incrédulos, os corintianos logo cercaram o árbitro, tentando convencê-lo que a infração foi de outro jogador. Gabriel, por sua vez, se resistia a deixar o campo. Mesmo pressionado e recorrendo aos auxiliares pelo fone, Thiago não voltou atrás. As câmeras da Globo ainda flagaram o bandeirinha Alessandro Darci, cercado pelos atletas, dizendo que a falta não foi de Gabriel. O volante deixou o campo furioso.
Veio o segundo tempo. Se antes dominavam a partida, agora os donos da casa teriam que superar a injusta desvantagem numérica contra um adversário tecnicamente superior. Nos primeiros 10 minutos, os alvinegros resistiram bem. Chegaram a arriscar algumas jogadas no ataque, continuavam cercando o ataque adversário e sequer pareciam estar com um a menos. Mas logo o cansaço apareceu, o anfitriões recuaram e os visitantes dominaram de vez a partida. Até os 20 minutos, o Palmeiras teve boas chances de abrir o placar. E inclusive chegou a marcar com Mina, mas o tento foi anulado por impedimento. Cássio, por sua vez, fez duas defesas difíceis, em um cruzamento fechado de Jean e uma cabeçada à queima-roupa de Keno. Willian ainda acertou uma bola no travessão corintiano, em um chute de fora da área. Depois disso, o Verdão continuou ditando o ritmo do jogo. Aos corintianos, restava apenas se segurar na defesa e impedir que o adversário chegasse com perigo.
Fábio Carille segurou os dez jogadores em campo até os 30 minutos da etapa final, apesar de seus comandados pedirem por substituição. Mesmo com dores na coxa, Rodriguinho permaneceu ativo até o final. Do outro lado, Eduardo Baptista já havia tirado Raphael Veiga, Felipe Melo e Willian e colocado, respectivamente, Guerra, Thiago Santos e Alecsandro. Até que o técnico do Corinthians resolveu mexer: colocou Moisés no lugar de Léo Jabá. Depois, Kazim sentiu dores no tornozelo e saiu para a entrada de Jô, preterido depois da atuação do inglês naturalizado turco contra o Audax. Então, aos 42 minutos, veio a redenção.
Dudu tentou colocar a bola na área corintiana, mas foi interceptado por Guilherme Arana, que mandou a bola para o ataque. Guerra segurou a bola na defesa, mas foi desarmado por Maycon, que avançou e tentou duas vezes tocar para Jô, que chegava livre. Acertou a primeira no pé do palmeirense e mandou a segunda para o atacante corintiano, de cara com Fernando Prass, chutar para o fundo da rede palmeirense, levando a Arena Corinthians abaixo. Em meio ao êxtase de um gol que parecia ser de um título, bastou ao Timão segurar a pressão dos rivais e a tensão do duelo. O time da casa ainda fez sua última alteração: Romero saiu para a entrada de Paulo Roberto. Sobrou tempo para outro cartão amarelo, dessa vez para Alecsandro, por dar uma bolada em Arana fora de lance. Vitor Hugo poderia ter sido advertido (e até expulso) por uma cotovelada em Pablo na área - o juiz marcou apenas uma falta. Após quatro minutos de acréscimos, Thiago Duarte Peixoto encerrou a batalha que ele próprio manchou.
Esse era, até o fim do primeiro tempo, um jogo bem disputado por ambas as equipes, digno da grandeza do confronto, que infelizmente tomou rumos diferentes por causa de uma falha grotesca do árbitro. Contudo, foi uma partida com a essência do clássico paulistano, com reviravoltas, fervendo do início ao fim. Para os corintianos, em especial, foi o jogo da redenção. De um time que ainda busca o seu rumo, de um atacante muito criticado, de um técnico que busca se afirmar, de uma torcida que quer voltar aos tempos de glória. O que parecia ser o caminho para uma derrota dolorosa tornou-se uma jornada épica, de uma equipe desacreditada que evocou a garra que só o corintiano conhece, sem se abater pelo favoritismo do adversário nem pelo erro do juiz. Uma noite que ficará marcada para sempre na memória daqueles que a vivenciaram, dentro e fora da Arena. Mais um grande capítulo dessa bela história de 100 anos. Uma vitória com cara de Corinthians. Um jogo com o espírito do Derby.


Ficha técnica

Corinthians 1 x 0 Palmeiras
Campeonato Paulista, fase de grupos
Arena Corinthians, São Paulo – SP
21h45, 22/02/2017

Corinthians
Cássio; Fagner, Balbuena, Pablo e Guilherme Arana; Gabriel e Maycon; Romero (Paulo Roberto), Rodriguinho e Léo Jabá (Moisés); Kazim (Jô). Técnico: Fábio Carille.

Palmeiras
Fernando Prass; Jean, Mina, Vitor Hugo e Zé Roberto; Felipe Melo (Thiago Santos); Keno, Michel Bastos, Raphael Veiga (Guerra) e Dudu; Willian (Alecsandro). Técnico: Eduardo Baptista.

Árbitro: Thiago Duarte Peixoto
Bandeirinhas: Emerson Augusto de Carvalho e Marcelo Carvalho Van Gasse
Público: 30727 pagantes
Renda: R$ 1.535.887,00
Gols: Jô - 42min., 2º tempo.
Cartões: Felipe Melo, Jean e Raphael Veiga (Palmeiras) - amarelo; Gabriel (Corinthians) - vermelho.



Notas para o Corinthians

Cássio - 8
Fagner - 8
Balbuena - 7,5
Pablo - 7,5
Guilherme Arana - 9
Gabriel - 8
Maycon - 8,5
Romero - 9
Rodriguinho - 7,5
Léo Jabá - 7,5
Kazim - 8

Moisés - 6,5
Jô - 9
Paulo Roberto - 6

Fábio Carille - 8,5
Vitória digna de Corinthians, jogo digno de 100 anos Vitória digna de Corinthians, jogo digno de 100 anos Reviewed by Anônimo on 03:42:00 Rating: 5

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